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Twitteratura ou escritores sem literatura (Marco Guimarães)

A internet chegou para o público no Brasil a partir de 1996. Até então, a comunicação via e-mail era realizada por meio das redes BITNET e USENET, instrumento criado em universidades americanas que utilizava à época o já apo- sentado modem. Como precursor da Internet, que surgiu para o público aqui no Brasil depois da metade dos anos 90, a rede BITNET tinha a vantagem de permitir uma rápida e gratuita troca de mensagens entre os interlocutores. Navegar em páginas ou até mesmo criá-las era privilégio de poucos pesquisadores ou técnicos que tivessem algum vínculo com as reduzidas instituições que tinham acesso a desconhecida internet.

Em 1995, o LNCC, em caráter experimental, lançou três páginas web no Rio de Janeiro, tendo sido dado a mim o privilégio de por no ar uma dessas páginas. O site logado no próprio LNCC versava sobre prevenção de dor nas costas em adolescentes (Low Back Pain Prevention in Adolescents), tema que tinha sido motivo de minha tese de doutoramento. Se por aqui, pela inexistência da internet, os brasileiros não podiam acessar a home page que eu havia posto no ar – indexada nas Yellow Pages dos Estados Unidos – as dezenas de mensagens que recebia de várias partes do mundo davam conta de que o número dos que acessavam a página era muito elevado. Em 1996, se não me falha a me- mória, a Internet foi disponibilizada para o grande público e, de lá para cá, chegamos a cifra de 41 milhões de acessos no primeiro trimestre de 2008. O internauta brasileiro, com acesso de 23 horas e 48 minutos por pessoa em média, navegou, nesse período, mais que o americano, o japonês, o francês, o americano e o australiano.

Com o crescimento vertiginoso da Internet, vieram tam- bém novas ferramentas e novos tipos de sites, tais como blo- gs, facebooks, twitters. Nunca tantos puderam se manifestar e trocar tantas e diversificadas informações entre si como o fazem agora. Houve também uma verdadeira socialização da informação através da disponibilização de livros, jornais e periódicos online. Livrarias tradicionais como a Amazon, e outras, como sempre vanguardistas, se adiantaram e pu- seram no ar obras literárias – usando uma interface gráfica especialmente criada para a ocasião – distribuídas em um equipamento quase tão fino como uma folha de um livro, mas com a diferença de que ali cabem algumas centenas ou talvez milhares de obras. Na área acadêmica, especialmente, os bancos de dados disponibilizados aqui no Brasil, prin- cipalmente pelo portal CAPES, têm se constituído como instrumento de real valor para o pesquisador, oferecendo- lhe condições de acesso a artigos recém publicados. Des- necessário discutir as vantagens da veiculação dos artigos científicos e a agilização que essa veiculação pode oferecer no desenvolvimento da pesquisa.

Apesar de todas essas aparentes vantagens, trazidas pela rede que nos conecta, sabemos que ainda há muitos pontos que merecem uma discussão mais profunda. Para mim, coe- xistem muitos mundos distintos na Internet, mas o aspecto que me convida, no momento, a visitar o tema nessa crônica relaciona-se à malha de comunicação que vem se estabelecen- do entre as pessoas, principalmente através do twitter. Sabe- mos que ajudou e até mesmo desempenhou marcante papel na eleição do recém eleito presidente dos Estados Unidos. Portanto, parece que, como arma propagandística, pode ser, se bem manejada, um excelente recurso. Mas, como instru- mento de intercomunicação pessoal e elaboração de idéias, estaria o twitter cumprindo o seu papel? Talvez, como agente puramente prático, suas metas sejam alcançadas, transmitindo informações do tipo: agora, passo rua tal sob uma forte chuva e com trânsito completamente parado, não venha para cá; ou: não compre esse produto agora, porque o preço irá cair em uma semana, a não ser que a urgência se faça necessária. O problema é que já começa a surgir no universo twitterista; a invenção do micro conto e seu sub-gênero literário, a Twitte-ratura. Fico imaginando o twitter sendo apresentado a Proust, o qual, como sabemos, inaugurou um tempo narrativo em que a pressa não tinha vez. Penso também no que sugeriu o teórico da cultura Umberto Eco, ao afirmar que o texto é uma máquina preguiçosa, que pede ao leitor para fazer parte do seu trabalho. Afinal, essas novas redes de relacionamento, com suas exigências restritivas, acabaram interferindo no ritmo do texto, que teve que se acelerar para acompanhar as normas impostas pelo sistema.

Falta-me ar quando penso que qualquer coisa que se escreva no twitter deve estar contida em 140 caracteres. Essa imposta mudança de ritmo nos leva a um tempo acelerado dos fatos, eliminando os tempos de encantamento e de ilusão, indispensáveis ao mundo ficcional. Poderia uma sentença (prefiro assim caracterizar) com 140 caracteres nos levar a passar a fronteira do real? Poderíamos, em 140 caracteres, prover uma espessura expressional decente que contivesse o relacionamento do conjunto de signos com as idéias e com o estilo que um texto requer? Onde estariam os artifícios de expressão que os textos deveriam representar? Nesses 140 caracteres?

Perguntem ao Barthes ou ao Eco (citados aqui pela importância de suas obras na semiótica) o que pensam dos futuros autores dos micro-contos twittisco, e talvez obtenham a seguinte e curta resposta: Escritores sem literatura, eis o que são! Ainda que tenha tido o privilégio de ter sido o autor da primeira home page veiculada na Internet, no Rio de Janeiro, e um dos primeiros no Brasil, parei por aí! Não me atrai e nem me comove a proposta twitterista de seguir e ser seguido por alguém.

Marco Guimarães