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Havia um menino (There was a boy) Marco Guimarães

Atendendo as súplicas de Ana, uma empregada que me atura há mais de 8 anos, resolvi abandonar momentaneamente a música clássica (Bach - Harpsichord Concerto No.1 in D Minor , dirigido por Trevor Pinncock), que ouvia na Air Classique, estação de rádio francesa  do  I tunes. Busquei uma estação, digamos, menos radical,  acreditando,  assim, que minha ajudante não cumprisse a promessa que há tempos vinha fazendo,  de atirar-se  do quinto andar, por não mais aguentar Bach, Vivaldi, Bethoven, Grieg, Weber, Rachmaninoff, etc.. Apontei  a seta do mouse para Breezy Radio (Singers, Swingers, Standards & Classic jazz)e, com uma leve pressão do indicador direito, finalizei a minha escolha. Como  se pode ver pelos sub títulos da rádio, o ecletismo é uma de suas marcas.  Por sorte, a  música que a estação tocava era “Nature Boy”. Tenho a certeza que o que chamam de “música popular de raízes” ou coisa que o valha seria melhor recebido pela minha ajudante, mas existem canções que, mesmo cantadas  em outra língua, conseguem agradar a todos, são consideradas universais,  e, depois, o intérprete era o inesquecível Nat King Cole, com sua romântica e marcante voz.

Interrompi o que escrevia e, de soslaio, olhei a pretensa suicida para ver se a minha opção estava aprovada. Essa pausa levou-me a dar à letra uma atenção que ainda não dera anteriormente.  A música ancora-se na história de alguém que, num mágico dia, encontra em seu caminho um menino; um tímido, sábio e estranho menino, que  afirma que amar e ser amado é  a mais importante coisa que se pode aprender na vida. ("The greatest thing you'll ever learn”-  “Is just to love and be loved in return"). Sei que a canção, composta em 1947, por Eden Ahbez (nascido como George Alexander Aberle) não é uma ode contra os princípios cristãos, mas atrevo-me a interpretá-la assim, e a primeira pergunta que me faço é: como ficaria o tal do amor incondicional, o amar sem ser amado, o dar sem receber? Daí me conduzo para uma outra pergunta, a do ser e ter, para tentar entender a questão que levantei.

Até a Idade  Média, diz-se que o “ser” predominava sobre o “ter”; à época, a vida na terra era considerada uma passagem, o que importava era o que viria após essa vida. Pois bem, as coisas mudaram apos o Renascimento. O transcendental desapareceu, por forças circunstanciadas a uma série de fatores, fatores esses  que desembocam em um materialismo social  e econômico, caracterizador da burguesia. Para o homem moderno,  verdadeiro predador social e emocional, que substituiu a natureza humana pelo homem na natureza seria inconcebível  amar sem ser amado, doar sem receber, ser e não ter. Pobre São Francisco,  pobre Noé, que desmatou tanta mata para juntar madeira e construir barco para salvar os “puros” do tsunami que varreu a terra. E, finalmente, o meu obrigado ao compositor Eden Ahbez, que terminou por ser minha muleta para a verdadeira digressão textual que pautou esse editorial.  

E, por falar em digressão,  não posso deixar de participar aos leitores, nesse final desse texto, que o meu segundo romance, “Meu pseudônimo e eu”, foi nomeado como um dos 20 finalistas do prêmio Portugal Telecom de Literatura (199 romances concorrentes). Aproveito também para informar, a quem estiver interessado, que os meus dois primeiros romances mereceram  um artigo, de autoria de uma professora da Sorbonne,  que será publicado em breve, na revista Latitudes, na França.  

Marco Guimarães